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O incêndio na Chapada dos Veadeiros: uma reflexão sobre o valor do meio ambiente

Todos nós sabemos que o ser humano vem alterando o meio ambiente continuamente, mas muitos não costumam pensar sobre isso no dia-a-dia. Porém, de vez em quando acontece alguma tragédia de grande proporção e que nos faz refletir sobre nossas ações.

Foi o caso do acidente com o césio-137 em Goiânia – GO, no ano de 1987; do vazamento de óleo na Baía de Guanabara – RJ, em 2000; do rompimento da Barragem de Mariana – MG, em 2015 e o caso mais recente, em outubro de 2017, com o incêndio na Chapada dos Veadeiros – GO.

Para quem não é familiarizado, a Chapada dos Veadeiros é uma das mais importantes unidades de conservação do Brasil. Foi criada em 1961, possui uma área de aproximadamente 236,570 ha de Cerrado, e é classificada como um Parque Nacional. Sendo assim, devido à sua importância, a ocorrência de incêndios é preocupante e tem consequências graves, como este ocorrido em outubro de 2017. O fogo durou 13 dias e queimou aproximadamente 28% da área total do Parque.

É importante ressaltar que o fogo, na região do Cerrado, pode acontecer naturalmente e tem a função de estruturar suas paisagens. Após a passagem do fogo de origem natural, ocorre uma rápida rebrota (que atrai herbívoros ao local) e algumas sementes que precisam desse choque, começam a germinar. Entretanto, existem locais e épocas apropriadas para isso, e o próprio meio ambiente regula esse sistema. Incêndios causados pela ação do homem costumam ocorrer fora das condições apropriadas, quando a biodiversidade ainda não está preparada e pode atingir proporções devastadoras, como é o caso do incêndio na Chapada dos Veadeiros.

As consequências de um incêndio englobam destruição da cobertura vegetal e do banco de sementes, prejudica a fauna local (inclusive espécies endêmicas e/ou ameaçadas de extinção), causam desequilíbrio ambiental, aumento na incidência de pragas e doenças, redução na qualidade do solo (ressecamento e perda de nutrientes), perda de recursos e da biodiversidade local (ainda desconhecida em grande parte) e também pode afetar a população do entorno.

Mas por que as pessoas não parecem se sensibilizar com essa situação?

Temos tudo muito fácil atualmente. Água encanada, comida pronta no supermercado, esgoto sanitário, entre outros, e dificilmente associamos esse conforto à origem e consequências dele. Não paramos para lembrar das hidrelétricas que produzem a energia, dos ambientes aquáticos poluídos pelo esgoto, da exploração incessante do meio natural, das monoculturas que produzem nosso alimento.

A verdade é que fechamos nossos olhos para a realidade assustadora do mundo. Se perguntarmos, para uma criança de onde vem o leite, talvez muitas respondam “do supermercado”. E essa falta de conhecimento acaba sendo muito prejudicial.

Um incêndio, por exemplo, não afeta apenas a fauna e flora da região, nem apenas as pessoas que moram próximas ao local, mas indiretamente as consequências chegam a todos. Desde a emissão de gases tóxicos e aumento do calor, até a redução da qualidade da água que abastece nossas casas. No final das contas, o prejuízo é de todos!

Um exemplo prático disso é que as pessoas muitas vezes não têm consciência do desperdício de água. Eu moro em Brasília, e estamos passando por uma crise hídrica grave: o reservatório do Descoberto (que abastece grande parte do DF) chegou a atingir 5,5% do seu volume (até a data de fechamento deste texto) e estamos a quase um ano passando por racionamento. Não vou entrar agora nas questões que originaram essa crise, mas fica a reflexão de como a ação antrópica no meio afeta sim nossa qualidade de vida, mesmo que de forma indireta.

Desenvolvimento Econômico X Preservação do Meio Ambiente

Existe uma discussão a respeito do que é mais importante: desenvolvimento econômico ou preservação do meio ambiente. Não podemos negar a importância da economia, mas até que ponto podemos investir nela, em detrimento do ambiente? E se não houvesse mais recursos naturais, como a economia sobreviveria? Como nós sobreviveríamos?

Afinal, por mais que a economia do país melhore diretamente nossa qualidade de vida, não podemos negar que o meio ambiente também tem essa função, através dos serviços ecossistêmicos. De forma simplificada, estes são os bens e serviços fornecidos pelos ecossistemas, de forma direta ou indireta, como por exemplo: provisão de água e alimentos, regulação do clima, decomposição do lixo, polinização, ciclagem de nutrientes, entre muitos outros.

Mas a reflexão que fica é que dependemos dos recursos naturais para tudo que produzimos e dependemos dos serviços ecossistêmicos para vivermos com qualidade. Ou seja, uma área de Cerrado cumpre um papel importante, fornecendo serviços que beneficiam a todos nós. E esse trabalho deve ser reconhecido! Devemos entender que o futuro depende das nossas ações atuais. Já sofremos pelos erros do passado, até quando continuaremos errando?

Deixo essa reflexão pois PRECISAMOS falar sobre isso.

Infelizmente, temos o hábito de esquecer rápido das coisas. Foi o que ocorreu com o rompimento da barragem de Mariana – MG. Alguns meses após o acidente, poucos ainda falavam sobre isso, mesmo este tendo sido um dos maiores acidentes da história brasileira, e que os culpados, até novembro de 2017, ainda não tenham sido punidos.

Mais do que uma questão financeira, essa é uma questão moral! O ritmo atual de desenvolvimento e exploração não condiz com nossa realidade. Colocar os benefícios particulares ou de grupos acima do bem geral da sociedade deveria ser punível. Afinal, não é apenas o meio ambiente que está em jogo, mas também a vida das pessoas. E não existe dinheiro no mundo capaz de pagar por uma vida.

Por outro lado, podemos tirar algo positivo dessa história toda. Durante os dias de duração do incêndio na Chapada dos Veadeiros, muitas pessoas se solidarizaram com a situação e doaram dinheiro (para alimentação e abrigo dos brigadistas) e tempo de suas vidas para um serviço voluntário. Sem essa ajuda, talvez o final tivesse sido ainda pior.

Uma tragédia, apesar de toda a sua consequência negativa, conseguiu unir pessoas com um objetivo comum. Enquanto existirem pessoas que pensem no próximo e coloquem-se a serviço dessa causa ainda haverá esperanças para um futuro melhor.

Eu acredito nisso, e você?


Fontes:

Após incêndio na Chapada, voluntários defendem continuidade de ações preventivas – http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2017-11/apos-incendio-na-chapada-voluntarios-defendem-continuidade-de-acoes

Cerrado: o fogo como agente ecológico – https://www.uc.pt/fluc/nicif/riscos/Documentacao/Territorium/T08_artg/T08_artg03.pdf

Níveis dos reservatórios – http://www.adasa.df.gov.br/monitoramento/niveis-dos-reservatorios

O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros como destino ecoturístico – http://bdm.unb.br/bitstream/10483/291/1/2003_BenitaMonteiroMuellerRocktaeschel.pdf

Relembre os principais desastres ambientais ocorridos no Brasil – http://www.ebc.com.br/noticias/meio-ambiente/2015/11/conheca-os-principais-desastres-ambientais-ocorridos-no-brasil

 

Sobre o Autor

Mariana Fonseca

Tenho bacharel em ciências biológicas, na área de biodiversidade, pela
Universidade Católica de Brasília – UCB e atualmente curso a licenciatura pela Claretiano. Apaixonada pela biologia desde sempre, é uma grande oportunidade poder participar do Biologia para Biólogos, compartilhar minhas experiências e, cada vez mais, aprofundar meus conhecimentos.

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