Biologia da Conservação

Citizen Science: O futuro das Ciências da Natureza

Você já ouviu falar em Citizen Science (ou ciência cidadã)? E em Monitoramento de Base Comunitária (do inglês CBM)? Sabe o que quer dizer? Pois saiba que essa é uma abordagem que vem se tornando cada vez mais comum lá fora e pode ter uma grande importância para o futuro da ciência, especialmente nas áreas ligadas as ciências da natureza.

Neste post vou falar um pouquinho do que aprendi recentemente sobre essa vertente e vou te dar algumas dicas de bibliografias e de projetos que você pode consultar para se aprofundar no tema (e quem sabe até se engajar).

Primeiramente, o que é Citizen Science?

O termo Citizen Scientist (em português seria algo como “cidadão cientista”) se refere a pessoas comuns que voluntariamente participam de atividades de coleta e compartilhamento de dados. Relacionados, principalmente, com os chamados programas de monitoramento de base comunitária (do inglês Community-Based Monitoring – CBM). Estes incluem diversos tipos de atividades, que vão desde observação de aves (também conhecido como birdwatching) a coleta de dados de qualidade de águas para monitoramento, até astronomia entre outros.

O engajamento de pessoas não profissionais em estudos científicos (citizen science) é uma pratica que tem ganhado força nas últimas décadas, principalmente nos países da Europa e América do Norte. Muito embora haja registros de atividades de pesquisa envolvendo comunidades remontando aos séculos 18 e 19. Um desses exemplos é o Christimans Bird Count organizado pela National Audubon Society (EUA) envolvendo a participação de dezenas de milhares de pessoas, todos os anos desde de 1900.

Aplicações

São inúmeras as aplicações e abordagens. Algumas com relatos de séculos passados e que continuam bastante comuns ainda hoje, por serem consideradas hobbies populares, como por exemplo, astronomia amadora e observação de pássaros (abordada em detalhes no texto: Birdwatching: observação de aves e biólogos, escrito pela Mariane Hengling aqui no blog). Entretanto também há programas de monitoramento de qualidade de mananciais, monitoramento de espécies invasoras, ocorrência de epidemias ou de agentes causadores de endemias, entre outros, todos com grande importância para tomadas de decisão por entidades governamentais responsáveis pelo uso e gestão de recursos naturais.

Alguns exemplos

Como eu disse no início, esse ainda é um recurso muito mais comum na Europa e América do Norte e relativamente pouco usado no Brasil. Porém já há alguns exemplos de redes de monitoramento ambiental em atividade por aqui que são superinteressantes e vou falar um pouquinho delas abaixo. Além disso vou colocar os links das respectivas páginas para que você possa buscar mais informações, entrar em contato e até, quem sabe, se engajar em algum programa na sua região

Projeto Cidadão Cientista (Save Brasil)

Seguindo o conceito de ciência cidadã, o projeto foi criado em 2014 com objetivo de promover a observação e o monitoramento de aves como instrumento para a conservação das espécies e dos seus habitats através do envolvimento da sociedade em geral. O projeto já realizou dezenas de visitas à UCs em quatro estados do Sul, Sudeste e Nordeste do país. E possui parceria com o laboratório de ornitologia da Cornell University (EUA).

A SAVE é uma organização que trabalha com foco especialmente na conservação de aves e implementa vários projetos em parceria com organizações locais, e nacionais, órgãos governamentais, empresas, líderes comunitários, pesquisadores e membros da sociedade civil. No site da entidade é possível conferir mais informações incluindo um calendário de atividades e até um jogo online para estimular a contagem de aves.

Sistema Urubu

Esse é um sistema desenvolvido pelo Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE) da UFLA, para reunir, sistematizar e divulgar informações sobre mortalidade de fauna por atropelamento nas estradas, ferrovias e afins. O sistema reúne informações de diversas fontes como órgãos governamentais, pesquisadores, concessionárias e usuários de estradas (ou seja, pessoas comuns como eu e você que estejam viajando por meio terrestre), entre outros. De modo que todas as informações são analisadas por especialistas em identificação de espécies.

O projeto também conta com um app para android gratuito e bem fácil de instalar e usar. O aplicativo funciona usando a câmera e a localização do aparelho, assim basta tirar uma foto e enviá-la para ser analisada e incorporada ao banco de dados. Também tem um texto muito legal escrito pela Vanessa Araújo (Atropelamento de Animais Silvestres no Brasil) abordando detalhadamente esse sistema.

Projeto Observando os Rios (Fundação SOS Mata Atlântica)

Projeto superbacana desenvolvido pela SOSMA que disponibiliza treinamento e kits para avaliação rápida da qualidade de corpos hídricos por grupos de voluntários. A iniciativa surgiu a partir de uma campanha para a recuperação do rio Tietê em São Paulo em 1991. Atualmente já conta com mais de 250 grupos que monitoram mensalmente a qualidade das águas de 247 corpos d’água em 104 municípios de todos os estados das regiões Sul, Sudeste além de diversos estados no Nordeste e Centro-Oeste do Brasil incluindo o DF.

Eu mesmo, por exemplo, cheguei a assistir uma das palestras que eles fizeram semestre passado no Estado de SE para divulgar e explicar como funciona o projeto, mas pouco depois me mudei para a Amazônia e não pude mais participar. Mesmo assim, acredito que alguns grupos comunitários tanto na capital como no interior já se organizaram e estão em atividade por lá.

Minha opinião sobre o assunto

Pelo que vi na literatura, ainda há uma certa controvérsia sobre a confiabilidade e acurácia dos dados coletados por voluntários não profissionais (cidadão cientistas) envolvidos em projetos desse tipo. Por exemplo, quanto a possíveis erros de identificação de espécies ou calibragem e manutenção de equipamentos sofisticados de medição. O que poderia comprometer as conclusões desses estudos e limitar sua abrangência.

Em todo caso, embora ainda exista um certo caminho a percorrer quanto a aperfeiçoamento dos protocolos e engajamento das pessoas e entidades civis e governamentais. Pessoalmente, acredito que essa é uma vertente muito promissora e que tende a se tornar cada vez mais frequente.

Basta pensar em países como o Brasil, por exemplo, com sua extensão continental, biodiversidade gigantesca e grandes deficiências na infraestrutura e no financiamento de pesquisas. O que gera grandes lacunas no conhecimento e gestão da nossa biodiversidade e recursos naturais. Assim, o engajamento de populações tradicionais, que frequentemente habitam locais onde é difícil para a maioria dos cientistas profissionais chegar e coletar dados, poderia ter um grande impacto positivo na aquisição de dados, monitoramento da qualidade e gestão dos recursos naturais e da nossa tão preciosa biodiversidade.

Quer saber mais?

Como tema é bastante vasto levaria um tempão para descrever em detalhes, sem falar que o texto acabaria muito extenso, e ainda assim poderia deixar de fora uma boa quantidade de programas e artigos relacionados ao assunto. Por isso eu preferi tratar de forma mais resumida aqui nesse post.

Porém, além dos projetos que mencionei anteriormente, logo abaixo estão os links para algumas iniciativas importantes na América do Norte e Europa acompanhados de uma breve descrição.

Community Based Environmental Monitoring Network

Organização que tem iniciado e apoiado programas de monitoramento ambiental de base comunitária desde 2004. Fundada e coordenada pela Dra. Cathy Conrad (entre os autores que li para esse post) está baseada na Saint Mary’s University no Canadá.

Scientific American

A Scientific American na verdade é uma das publicações científicas mais antigas e renomadas dos EUA, publicando artigos científicos de diversas áreas do conhecimento desde o século 19. Aqui segue uma página deles que contêm uma lista de diversos projetos envolvendo citizen scientists, a maior parte parece ser dentro das ciências ambientais, mas pelo que vi também há projetos relacionados com astronomia, eventos climáticos, ciências da saúde entre outros.

European Citizen Science Association (ECSA)

Entidade sem fins lucrativos voltada para estimular o crescimento e aperfeiçoamento do movimento de Ciência Cidadã na Europa. Lançada em 2013 na EU Green Week, atualmente inclui mais de 200 membros de mais de 28 países no continente europeu.


Referências

Aqui listei alguns dos artigos que li sobre o assunto e que recomendo para se aprofundarem no tema. De cara achei esse primeiro do Cohn (2008) uma leitura bem fácil e acessível, dando uma visão boa com exemplos bem legais. Vale a pena a leitura.

Cohn J.P. (2008). Citizen Science: Can Volunteers Do Real Research? Bioscience [Internet], 58(3):192.

Conrad C.C. & Hilchey K.G. (2011). A review of citizen science and community-based environmental monitoring: Issues and opportunities. Environmental Monitoring Assessment, 176(1–4): 273–91.

Dickinson J.L.; Zuckerberg, B. & Bonter, D.N. (2011). Citizen Science as an Ecological Research Tool: Challenges and Benefits. Annual Review of Ecology, Evolution and Systematics, 41: 149-172.

Silvertown, J. (2009). A new dawn for citizen science. Trends in ecology & evolution, 24(9), 467-471.

Sobre o Autor

Taiguã Corrêa Pereira

Bacharel em Biologia e Mestre em Ecologia e Conservação pela UFS.
Atualmente cursando doutorado em Botânica no INPA.
Curioso e apaixonado pela natureza desde pequeno (quando criança vivia com uma lupa na mão investigando as plantas e os insetos do quintal, ou assistindo documentários na TV).
Escrever para o Blog é uma oportunidade maravilhosa de adquirir e partilhar conhecimentos sobre essa biodiversidade fantástica e a natureza tão rica que nos cercam. E além disso, poder contribuir de alguma forma para a formação e o crescimento dos colegas de profissão e o bem da nossa sociedade como um todo.