Animais Silvestres

E se olharmos os cupinzeiros com outros olhos?

Quais as surpresas que estão por de baixo dos seus olhos, no interior do solo?

Figura 1

O ambiente está repleto de organismos vivos, dentre os quais estão bactérias, fungos, protozoários, plantas e animais. Dentre os animais, existem aqueles que dificilmente vemos ou sabemos alguma coisa sobre.

Como os animais marinhos ou animais subterrâneos. Dificilmente os vemos, sem ser na televisão ou na internet, e apenas sabemos que estão lá, cumprindo seu papel ecológico.

A organização social na ecologia

Existem ainda animais que possuem uma estruturação social bastante complexa e nos deixam de queixo caído por tamanha organização, chamados de eussociais. Eles possuem uma interação de tal forma que cada um exerce uma tarefa ou tem uma função distinta, podendo a colônia inteira funcionar como um único indivíduo.

Existem soldados, defensores da colônia;  e os operários, aqueles que constroem a colônia, buscam alimento e mantém a colônia nutrida. Normalmente, cada colônia possui apenas um par real, um rei e rainha. As rainhas são as fêmeas  encarregadas da reprodução da colônia,  já os machos reprodutores fecundarão a fêmea.

Exemplos de animais eussociais são principalmente insetos, como as abelhas, as formigas e os cupins. Entretanto, também existem mamíferos eussociais, como os ratos toupeira pelados, que vivem na África.

O papel ecológico do cupim

Esses insetos eussociais possuem relações e funções ecológicas bastante interessantes. Esses animais criam em seu ninho, chamado de cupinzeiro, uma região com um eficiente sistema de aeração, tornando o ninho um local com umidade relativa e temperatura estáveis. Durante a construção do ninho e de galerias no solo, os cupins auxiliam na distribuição de vários nutrientes.

Por isso você não esperava, não é?

Figura 2

Além de proporcionar um ambiente agradável para diversos animais, os cupins ainda podem realizar ações de mutualismo com alguns organismos. Um estudocompila todos os trabalhos até 2016 sobre as interações entre cupins e fungos e conclui que na maior parte dos casos, a presença de fungos ajuda ou incita a agregação de cupins.

Apesar de ser “bonzinho” para alguns organismos, os cupins também podem ter relações negativas com outros grupos, como todo ser vivo apresenta diferentes relações com diferentes organismos.

Nicho ecológico os cupins

Os cupins, por se alimentarem de madeira, são prejudiciais para construções e móveis construídos pelo homem. Você provavelmente já teve problema com infestação de cupins na sua casa, ou pelo menos conhece alguém que já teve.

Dessa forma, trabalhos foram desenvolvidos para compreender a química desses animais e suas interações com outros organismos com o intuito de preveni-lo como praga.

Os cupins, também chamados de térmitas, são consumidores primários e decompositores, dessa forma, eles auxiliam na ciclagem dos nutrientes. Sua presença em material vegetal em decomposição propicia a entrada de microorganismos, que acelerarão o processo de decomposição.

Outro papel importante desses insetos é que algumas espécies associam-se com  bactérias em seu intestino, que são capazes de fixar o nitrogênio. A fixação  desse elemento é importante, já que a maioria dos animais e plantas não conseguem metabolizá-lo na sua forma gasosa (N2).

Só conseguindo incorporá-lo quando está na forma de nitrato, o que só ocorre após a fixação biológica de nitrogênio. Esse elemento é importante constituinte de aminoácidos, proteínas, DNA e RNA, além de outras estruturas celulares.Além disso, que diversos organismos também possuem interações e papéis ecológicos importantes.

Só porque não vemos um organismo ou porque ele não apresenta benefício direto para o homem, não significa que ele não seja essencial para a natureza, para o ecossistema em que vive.

Nas referências, encontram-se artigos sobre o tema que exemplificam melhor as interações e os processos discutidos acima. Além de apresentarem estudos mais aprofundados sobre esses animais.


Referências:

  1. Cornelius, M.L., Williams, K.S., Lovisa, M.P. & De Luca II, A.J. (2012) Aggregation and Feeding Behavior of the Formosan Subterranean Termite (Isoptera: Rhinotermitidae) on Wood Decayed by Three Species of Wood Rot Fungi. Sociobiology. Vol. 59 (3): 667-679.
  2.  Moro, D., Cullen, P. & Fletcher, J. (2014) Vertebrate Fauna In Termite Mounds                  Compared To Surrouding Vegetation On Barrow Island. Pacific Conservation Biology. Vol.20 (3):296-301.
  3. Toscano, L.C., schlick-souza, E.C., Mamoré Martins, G.L., Souza-Schlick, G.D.,  Maruyama, W.I. (2010)Controle do Cupim de Montículo (Isoptera: Termitidae) de Pastagem com Fungos Entomopatogênicos. Revista Caatinga [en linea]. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=237116915002> ISSN 0100-316X
  4. Viana-Junior, A.B., Côrtes, M.O., Cornelissen, T.G. & Neves, F.S. (2017) Interactions between wood-inhabiting fungi and termites: a meta-analytical review. Arthropod-Plant Interactions. https://doi.org/10.1007/s11829-017-9570-0
  5. Cancello, E. M. & Schlemmermeyer, T. (1999) Isoptera, Capítulo 9, 80–91. Invertebrados Terrestres. Biodiversidade do Estado de São Paulo, Brasil: Síntese do conhecimento ao final do século XX. São Paulo, FAPESP, Vol. 5, 279 p.

Figura 1: foto da autora – foto tirada por Arleu Viana-Junior

Figura 2: http://insecta2010.blogspot.com.br/2010/06/isoptera.html

Sobre o Autor

Mariana Côrtes

Graduanda em Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estagiária no Centro de Transposição de Peixes da UFMG, atuando principalmente na área de Ecologia. Nos dias atuais, de incrível velocidade e muitos megabites, o grande volume de informações científicas produzido diariamente faz qualquer um de nós ficar desatualizado num piscar de olhos. Trabalhar num blog que tem por objetivo partilhar as informações e divulgar o conhecimento científico é um desafio instigante para mim.