Animais Silvestres Biologia da Conservação

Introdução de espécies exóticas no Brasil

Um ambiente natural apresenta várias populações de espécies que vivem e interagem entre si, como espécies de plantas, animais, fungos e bactérias.

No geral, chamamos de espécies exóticas aquelas espécies que não são naturais, não são nativas de algum ambiente. Quando uma espécie não nativa é vista em algum ecossistema ela pode ter sido introduzida por ações humanas ou por processos naturais, entretanto, podem causar potenciais desequilíbrios no ambiente que chegaram.

Figura 1. http://www.aquarismopaulista.com/piranha-branca-serrasalmus-marginatus/

O principal problema dessas espécies que costumamos ouvir tanto é o desequilíbrio na cadeia alimentar e na teia trófica, como um todo, do ecossistema em que ela chegou.

Um exemplo comum e mais simples de se compreender é a invasão de uma espécie de peixe em rios e riachos, como a piranha (Serrasalmus marginatus)(Figura 1) em rios da bacia do rio Paraná. Essa espécie era comum no baixo Paraná e após a inundação das Sete Quedas pela construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu a piranha conseguiu migrar para as demais regiões do rio e seus tributários no alto e médio Paraná.

Um problema que essa espécie pode causar é a diminuição de alimento disponível para outras espécies do rio, como por exemplo, o mandi. Como a piranha é carnívora e se alimenta de outros peixes, os predadores naturais de pequenos peixes pode passar dificuldade de se alimentar, levando a redução de sua população no rio.

Esse foi apenas um exemplo, mas uma espécie exótica introduzida só é considerada estabelecida após a constatação de recrutamento na nova área, ou seja, capacidade de se reproduzir e de crescimento de seus filhotes. Uma espécie não nativa qualquer pode causar enormes danos a um ecossistema.

Outro exemplo é a compra de diversos peixes de outras regiões, amazônicos, por exemplo, por aquaristas. Após o crescimento demasiado de um peixinho que era para ficar no aquário pequeno, muitas pessoas acreditam que devem jogar o peixe fora em um rio qualquer, porque o melhor a se fazer é devolver o animal para a natureza.

Nem sempre!

Vamos imaginar que esse peixe amazônico comprado por alguém e solto em um rio na região Sudeste pode desestruturar toda a teia alimentar que existia ali. Esse peixe introduzido pode se alimentar de alguma espécie de peixe herbívoro, que antes não tinha predador.

E aí o que acontece?

As algas ou plantas começam a se proliferar mais rapidamente, podendo causar um desequilíbrio. Animais que antes apresentavam desvantagem no rio por terem poucos locais para se camuflar, passam a conseguir esconderijo, e então seus predadores passam dificuldade em conseguir alimento.

Figura 2.

Na figura 2, podemos observar a estrutura de uma cadeia alimentar antes (A) e depois (B) da introdução de uma espécie não nativa. Observe que após a introdução de um novo peixe piscívoro (que se alimenta de peixes), a quantidade de indivíduos dos demais peixes existentes no rio pode diminuir. Consequentemente, a quantidade de algas macrófitas e zooplâncton pode aumentar, já que o número de predadores diminuiu.  E por sua vez, a quantidade de fitoplâncton pode reduzir, devido ao aumento de zooplâncton.

São tantas as coisas que podem acontecer em um único corpo aquático decorrente da introdução de espécies não nativas, que poderíamos descrever em um texto de várias páginas. Ou passar horas conversando sobre. Antes de liberar um peixe em um rio ou riacho, o ideal seria procurar saber se a espécie desse peixe que você não quer mais é nativa ou não e se ela causaria grandes alterações no ecossistema.

Figura 3.

Um outro exemplo de introdução que vem ocorrendo no país é a proliferação do Coral-sol (Figura 3) no litoral brasileiro. Essa espécie chegou a nossa costa por embarcações de navios e águas de lastro. Ao chegar ao Brasil, esse coral se deparou com a ausência de predadores e se reproduziu em grande escala. Atualmente, no Rio de Janeiro, o Projeto Coral-Sol trabalha na remoção e na tentativa de amenizar os impactos causados pela chegada dessa espécie não nativa (Figura 4).

Figura 4.
Figura 5.

Da mesma forma, o Peixe Leão (Figura 5), comum no Caribe, que já foi constatado em algumas regiões litorâneas do Brasil encontrou abundância de alimentos e ausência de predadores, tendendo a se estabelecer. Futuramente, pode causar enormes alterações.

A forma de prevenção mais simples de se evitar essas invasões é o trabalho na conscientização de pessoas e na educação ambiental, para evitar que alguma espécie não nativa se estabeleça. Após o estabelecimento ser constatado, é muito difícil remover essa espécie da área invadida e os custos nessa tentativa são muito maiores.

No Brasil, 66 espécies não nativas afetam o ambiente marinho. Destas, 43% foram consideradas detectadas em ambiente natural, 24% estabelecidas, 18% contidas e 15% invasoras. Para os ambientes aquáticos continentais do país, foram identificadas 49 espécies exóticas invasoras, envolvendo crustáceos (1 espécie); macrófitas aquáticas (6 espécies); microrganismos (1 espécie); moluscos (4 espécies); e peixes (37 espécies).


Links relacionados:

Espécies Exóticas Invasoras de Águas Continentais no Brasil

Projeto Coral-Sol : http://www.brbio.org.br/nossos-projetos/projeto-coral-sol/


Referências imagens:

http://www.revistacidade.com.br/meio-ambiente/746-litoral-fluminense-foi-invadido-pelo-coral-sol

https://oglobo.globo.com/rio/pesquisadores-travam-batalha-contra-coral-sol-que-tomou-litoral-sul-do-estado-16837247

http://peixes.animais.info/imagens-peixe-leao-vermelho-jpg


Referências

AGOSTINHO, Carlos Sérgio & JÚLIO JR., Horácio Ferreira. Observation of an invasion of the piranha Serrasalmus marginatus Valenciennes, 1847 (Osteichthyes, Serrasalmidae) into the Upper Paraná River, Brazil. Acta Scientiarum, Maringá, v.24, n. 2, p.391-395, 2002.


SOUZA, Rosa Cristina Corrêa Luz;
CALAZANS, Sálvio Henrique & SILVA, Edson Pereira. Impacto das Espécies Invasoras no Ambiente Aquático. Ciência e Cultura, v. 61, p. 35-41, 2009.

Sobre o Autor

Mariana Côrtes

Graduanda em Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e estagiária no Centro de Transposição de Peixes da UFMG, atuando principalmente na área de Ecologia. Nos dias atuais, de incrível velocidade e muitos megabites, o grande volume de informações científicas produzido diariamente faz qualquer um de nós ficar desatualizado num piscar de olhos. Trabalhar num blog que tem por objetivo partilhar as informações e divulgar o conhecimento científico é um desafio instigante para mim.

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