Animais Silvestres

Muriquis (Brachyteles sp.) ameaçados: que tem sido feito para salvá-los?

 Na Universidade do Estado de Minas Gerais em Carangola, onde atualmente estudo, tive a oportunidade de saber mais sobre os muriquis conversando com o professor Msc. Daniel Ferraz, um dos coordenadores e “muricólogo” (termo que define carinhosamente quem estuda os muriquis) do Projeto Muriquis do Caparaó.

Imagem 1. Professor Daniel Ferraz em trabalho de campo no Parque Nacional do Caparaó.
  1. Muriquis: Duas espécies em um gênero

“Somos os maiores primatas das Américas e maiores mamíferos endêmicos do Brasil, vivemos na Mata Atlântica e somos pacíficos. Nosso lar está em constante fragmentação e por isso estamos criticamente ameaçados de extinção.

Você nos conhece? Muito prazer, somos os muriquis!”

Imagem 2. Muriqui-do-norte. Foto de: Bart van Dorp.

Repare que na face dos indivíduos adultos dessa espécie há uma despigmentação. Na natureza existem somente cerca de 900 indivíduos.

Imagem 3. Muriqui-do-sul. Foto de: Sinara Conessa.

Existem aproximadamente 1500 indivíduos dessa espécie na natureza, os quais não possuem despigmentação na face.

Dentro do gênero Brachyteles, existem duas espécies: Brachyteles hypoxanthus (muriqui-do-norte), que está distribuído mais ao norte da Mata Atlântica e Brachyteles arachnoides (muriqui-do-sul) que se situa mais ao sul do mesmo bioma.

Conversando com o Daniel pude saber que as duas espécies possuem diferentes distribuições. O muriqui-do-norte ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia (devido à presença desse primata na região do Parque Nacional do Alto Cariri)2. Do ano de 2015 em diante, também foi descoberta uma população desta espécie no Parque Nacional do Itatiaia, situado nas divisas de Minas Gerais e Rio de Janeiro3. Já o muriqui-do-sul ocorre nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.

Apesar de uma pequena diferença na dieta, ambas as espécies são importantes na dispersão de sementes. O muriqui-do-sul vive em florestas ombrófila e úmida onde a disponibilidade de frutos é maior, o que permite que ele coma frutos na maior parte do tempo.

Já o muriqui-do-norte come mais folhas do que frutos. Uma das espécies vegetais presentes na dieta deste primata é Psychotria vellosiana, conhecida popularmente como café-do-mato. Em um trabalho de um grupo de pesquisa do qual fiz parte, descobrimos que essa planta foi capaz de atuar como um estimulante sexual em ratos Wistar adultos, promovendo um aumento na produção de espermatozoides4.

Esse trabalho mostra não só a importância das espécies vegetais, mas também indica que essa planta associada ao muriqui-do-norte permite dizer que o vegetal ajuda naturalmente no quesito reprodução entre os indivíduos da espécie. Quer acontecimento melhor que esse?

  1. A reprodução é singular e influi diretamente na conservação das espécies

As fêmeas de muriqui migram, você sabia? Não é curioso?

“Antes de atingirem a idade reprodutiva, com 6 anos de idade aproximadamente, elas deixam o bando natal devido ao fator genético consanguinidade e saem a procura de outro grupo de muriquis. Casualmente, as fêmeas que migram podem ter maiores dificuldades para conseguirem alimento, já que estão sozinhas”, explica Daniel.

É esse comportamento que vai garantir uma chance de reprodução para a fêmea da espécie em questão. Mas não é só isso!

Além do baixo número de indivíduos das duas espécies na natureza, um fator que dificulta esse encontro é a constante fragmentação da Mata Atlântica, o que acaba por diminuir as chances de reprodução dos muriquis.

As fêmeas de muriquis se reproduzem com aproximadamente 10 anos de idade (um pouco mais tarde do que outras espécies de primatas), tendo um filhote por gestação a cada três anos.

Apesar de serem casos raros, o nascimento de gêmeos de muriqui-do-norte já foi registrado em uma população situada na Reserva Particular do Património Natural (RPPN) Feliciano Miguel Abdala em Caratinga, Minas Gerais.

  1. Um abraço de muriqui fala mais que mil palavras

Se você é fã de primatas e gosta de assistir documentários sobre eles, tenho certeza que já viu alguma espécie realizando o trabalho de limpeza de pelos uns nos outros.

Na conversa com o Daniel eu soube que diferentemente, os muriquis não apresentam esse comportamento. Mas em compensação os abraços entre os indivíduos do grupo é parte constante do comportamento social diferenciado no comportamento dos muriquis, o que chama atenção dos pesquisadores.  

Imagem 4. Abraço entre muriquis-do-norte. Foto de : Daniel Ferraz.

Esses primatas vivem em uma sociedade pacífica e igualitária. Dentro dos grupos não há um macho ou fêmea dominante ou uma liderança de grupo tão clara como há em diversas outras espécies de primatas.

Há poucos casos de agressão física registrados entre os muriquis. Um deles ocorreu no Parque Estadual de Carlos Botelho em São Paulo, onde um grupo de machos de muriquis-do-sul agrediram um outro macho levando-o à óbito.5

  1. A história dos muriquis e a conservação andam juntas

A proteção dos muriquis figura no Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Muriquis do Instituto Chico Mendes para Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Apesar disso, os estudos com muriquis começaram no final da década de 60, com o pesquisador pioneiro Álvaro Coutinho Aguirre. Já na década de 80 a pesquisadora americana Karen Strier começou seus estudos na Estação Biológica de Caratinga (atual Reserva Particular do Património Natural Feliciano Miguel Abdala). Hoje, com mais de 35 anos de duração, as pesquisas de Karen estão entre os maiores e mais importantes projetos de longo prazo com primatas de todo o mundo.

Atualmente os estudos para a conservação das espécies prosseguem com importantes projetos como o Projeto Muriqui – Espírito Santo, Projeto Muriquis do Sossego, Programa de Conservação Muriquis de Minas, Projeto de Conservação dos Monos no Paraná além de estudos em São Paulo através da ONG Pró Muriqui.

Na Universidade na qual estudo, temos destaque para o Projeto Muriquis do Caparaó, que tem na sua equipe de coordenação o professor Daniel Ferraz.

  1. Conheça mais sobre o Projeto Muriquis do Caparaó

A iniciativa do Projeto Muriquis do Caparaó e a escrita de propostas surgiram em 2011 com três jovens pesquisadores, Mariane Kaizer, Alba Coli e o professor Daniel Ferraz. Além da observação e monitoramento da população de muriquis no Parque Nacional do Caparaó a educação e sensibilização ambiental são matrizes trabalhadas no Projeto6.

Entrevistas com moradores do entorno do Parque também são realizadas, uma vez que as informações de moradores que vivem há muitos anos no local ajudam os pesquisadores a tomarem os próximos passos no monitoramento da espécie e continuidade do Projeto. Os trabalhos de campo que iniciaram em 2014, tiveram como principal achado na época um novo grupo de muriquis para o Parque. Até hoje as pesquisas e novos achados seguem a todo o vapor!

Imagem 5. Parque Nacional do Caparaó. Foto de: Daniel Ferraz.
Imagem 6. Parque Nacional do Caparaó. Foto de: Daniel Ferraz.

Como os pesquisadores do Projeto monitoram uma população de muriquis?

Recentemente estão sendo testadas novas tecnologias no estudo dos muriquis no Caparaó como armadilhas fotográficas no dossel das árvores para a coleta de imagens e gravadores de som para captar vocalização dos muriquis. Este estudo faz parte do doutorado da pesquisadora e também coordenadora do Projeto, Mariane Kaizer. Mas além dessas novas práticas são utilizadas por toda a equipe ferramentas básicas em estudos com primatas como metodologias de censo por transecção linear e busca ativa.

Já que os muriquis não estão habituados com a presença humana, o que fazer quando se vê um bando?

A resposta é coletar dados e coletar! Ser preciso na contagem do maior número de indivíduos possíveis é importante para o estudo da demografia e conhecimento da população em questão. A experiência dos pesquisadores conta muito nessas horas, ressalva o professor Daniel.

Imagem 7. Eis o Rodrigo, membro da equipe do Projeto Muriquis do Caparaó, anotando os dados no diário de campo.
Imagem 8. Aqui está a pesquisadora Mariane Kaizer observando os primatas.

 Não é tarefa fácil para o Daniel e os pesquisadores correrem atrás deles para monitorá-los!! Olha só!

Ei pessoal!Vocês sabiam que os muriquis do Caparaó não são habituados à presença dos pesquisadores, e desta forma, sua primeira reação a nós humanos é a fuga.E quando esses bichos querem fugir, são verdadeiros atletas correndo pelas copas das árvores. Não é uma tarefa fácil acompanhá-los.#ProjetoMuriquisdoCaparaó #FromtheField #PARNACaparaó #muriqui #MuriquisAtletas #PrimateConservation© Todos os direitos reservados. Imagens: Daniel Ferraz

Posted by Projeto Muriquis do Caparaó / Caparaó Muriquis Project on Saturday, July 8, 2017

Uma novidade que promete aprimorar as pesquisas nessa área é a utilização do dronequi, nova tecnologia desenvolvida a serviço da biodiversidade1.

As dificuldades no monitoramento de muriquis se devem ao fato dos primatas habitarem a copa das árvores em florestas densas e difícil acesso, o que torna mais trabalhoso o monitoramento em terra.

Daí surgiu a ideia da implementação de um drone para monitoramento e identificação de muriquis surgiu das experiências de campo do professor Fabiano Rodrigues de Melo, coordenador do Programa de Conservação Muriquis de Minas.

O dronequi, drone com duas câmeras de alta resolução foi desenvolvido pela empresa Storm Security, que é também responsável por desenvolver um software integrado para auxiliar na busca e identificação dos primatas.

Um primeiro teste já foi realizado com sucesso. Tenho certeza que você vai ficar impressionado assim como eu.

Em parceria com o Programa de Conservação Muriquis de Minas, o drone será utilizado também no monitoramento da população de muriquis-do-norte que ocorre no Parque Nacional Caparaó. Mas não param por aí, está nos planos dos pesquisadores do Projeto Muriquis do Caparaó adquirir um drone para ser utilizado em toda a região do Parque, o que vai potencializar ainda mais os estudos de conservação da espécie no local.

Outra notícia que vai abalar o mundo dos muricólogos é a criação de uma nova ONG pela equipe do Projeto Muriquis do Caparaó para a conservação destes primatas, a Rede Eco-diversa para conservação da biodiversidade. Então em breve vai ter novidade, e é claro que eu postar aqui e chamar vocês para abraçarem mais essa causa junto comigo!

Segundo o professor Daniel toda essa estória de conservação dos muriquis no Caparaó só é possível graças às parcerias e o empenho que os pesquisadores têm para abraçar a causa e pelas parcerias estabelecidas com diversas instituições e pesquisadores.

Imagem 9. Projeto Muriquis do Caparaó e seus parceiros.

A conservação dos muriquis é um trabalho feito à muitas mãos e depende também de você. Quanto mais você compartilhar o post com os biologistas à tua volta, mais visibilidade os nossos muriquis irão ter perante a sociedade!

Vou deixar uma amostra do Projeto Muriquis do Caparaó com esses clicks do professor Daniel.

Imagem 10. Uma fêmea de muriqui-do-norte com seu filhote.
Imagem 11. Você consegue ver aonde está o muriqui?
Imagem 12. Repare como o muriqui utiliza a cauda como um quinto membro para se locomover nas copas das árvores.
Imagem 13. Repare na extensão dos membros dos muriqui e a maneira como o primata utiliza esses membros como forma de apoio.
Imagem 14. Olhe que muriqui-do-norte mais lindo! Fez até pose para foto.
Imagem 15. Equipe de pesquisadores do Projeto Muriquis do Caparaó. À frente, o professor Daniel Ferraz, seguido de Mariane Kaizer, Francisco Gabriel e Rodrigo Silva.

Quer conhecer um pouco mais do trabalho do Projeto Muriquis do Caparaó e ficar por dentro das novidades e das pesquisas? Aproveita e deixa o seu joinha lá para ajudar na divulgação e compartilha!

https://www.facebook.com/muriquicaparao/

Vou deixar também aqui os links de artigos científicos para você que quer saber mais sobre essas espécies, vale a pena conferir!

Abraços de muriquis!


Links relacionados:


Referências:

  1. http://www.crbio04.gov.br/index.phpoption=com_content&view=article&id=1981&Itemid=186
  2. MELO, Fabiano R. et al. Novos registros de muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) no Vale do rio Jequitinhonha, Minas Gerais e Bahia. Neotropical Primates, v. 12, n. 3, p. 139-143, 2004.
  3. AXIMOFF, Izar Araujo. Confirmação da ocorrência do muriqui-do-norte (Primates, Atelidae) no Parque Nacional do Itatiaia, Estado do Rio de Janeiro, sudeste do Brasil. Oecologia Australis, v. 18, 2015.
  4. Neves Sousa, Dayane ; Gonçalves Silva, Priscila ; Alves Lozi, Amanda ; Lugate Cardoso Costa, Kyvia ; César Vieira, Breno ; Viana Leite, João Paulo ; Luiz Pinto da Matta, Sérgio. Efeitos do extrato de Psychotria vellosiana (Rubiaceae) sobre os parâmetros reprodutivos de ratos Wistar adultos. Anais do XXXVII ERBOT. Carangola: UEMG, 2017.
  5. http://www.icmbio.gov.br/portal/images/stories/docs-plano-de acao/pan-muriqui/livro_muriqui_web.pdf
  6. Ferraz, D.S. Projeto Muriquis do Caparaó-Nossa História. Acesso em: 6 de Novembro de 2017.
  7.  https://www.flickr.com/photos/bartvandorp/7955440396/sizes/l
  8. https://www.flickr.com/photos/sinara06/5648155456/sizes/l

Sobre o Autor

Priscila Gonçalves Silva

Sou uma graduanda apaixonada por células e trabalho com pesquisas na área da histologia e da toxicologia experimental. Mas tenho ainda uma outra inspiração: escrever! Escrever sobre o que vivemos e ensinar para outras pessoas o que aprendemos é o que nos faz melhores e o que nos move! E sobre você, o que te move e te inspira?

6 Comentários

Clique aqui para comentar
  • Muito obrigado pela excelente oportunidade Priscila, o texto ficou ótimo. Em nome de toda equipe do Projeto Muriquis do Caparaó, um grande abraço de muriqui pra você!!!

    • Obrigada professor pelo apoio e ajuda de sempre nessa luta por disseminar o conhecimento!Abraços!

  • Muito importante esse estudo de vocês que observaram o fato das fêmeas dos muriquis abandonarem o bando e saírem a procura de outro bando de muriquis para reprodução e com isso elas evitam fator genético consanguinidade.
    Mas como ocorre a fragmentação da Mata Atlântica e consequentemente elas tem uma enorme dificuldade nesse deslocamento para achar outros bandos, diminue as chances de reprodução dos muriquis.
    Ou seja, precisamos dar um basta na destruição da Mata Atlântica. #DesmatamentoZero #PrioridadeReflorestamento

    • Exatamente, a fragmentação de habitats é o nosso maior desafio a ser enfrentado.Por isso é preciso que projetos de conservação voltados para estas espécies ocorram como ações rotineiras e por longos períodos de tempo. Obrigada pelo comentário Hilton! Fico feliz que tenha gostado do trabalho!

  • Nossa, estou impressionado com este trabalho com os muriquis, obrigado por apresentar esse texto rico de informações, principalmente sobre as fêmeas dos muriquis abandonarem o bando para procura de outro, mas devido a fragmentação da Mata Atlântica isso acaba dificultando o deslocamento. Muito obrigado por trazer essas informações.

    • Fico feliz que tenha gostado do texto e do trabalho! Obrigada de verdade pelo apoio! Abraços!