Animais Silvestres

O maravilhoso mundo das serpentes

Serpentes são répteis de sangue frio, desprovidos de membros (rastejantes), de pálpebras e de aparelho auditivo externo.

Para compensarem sua visão deficiente, contam com outros órgãos sensoriais. Um deles é a língua bífida ou bifurcada, com as quais as serpentes  sondam o ambiente captando partículas soltas no ar, levando-as a um orifício situado no palato chamado órgão de Jacobson, onde é feita a “leitura” ou identificação dessas partículas.

Mas é serpente ou cobra?

A maioria das pessoas os chamam de “cobras”, mas há uma contradição na utilização desse nome. Cobra é o nome próprio dado a uma espécie de serpente encontrada no norte do continente Africano e na Ásia, cujo nome científico é Naja hannah, ou Cobra-Rei. É a maior serpente peçonhenta de todo planeta, conhecida nossa dos filmes.

É venenosa ou peçonha?

Existe outra confusão entre os termos veneno e peçonha. Animais peçonhentos são aqueles que introduzem substâncias tóxicas (peçonhas), produzidas em glândulas, no organismo vivo, com auxílio de aparelho inoculador (ferrões, acúleos, presas ou dentes). Portanto, as peçonhas são inoculadas (ou injetadas) nos organismos vivos.

Por outro lado, os animais venenosos são aqueles que possuem glândulas produtoras de veneno, embora não apresentem órgão inoculador. Neste caso, o envenenamento ocorre pela ingestão do animal portador de veneno ou do próprio veneno.

Os animais conhecidamente venenosos são os sapos e algumas rãs. Para que um animal (ou o próprio homem) seja envenenado por um destes animais, é preciso que ele os ingira. As serpentes, os escorpiões, as aranhas, abelhas e lacraias são considerados animais peçonhentos, pois são capazes de inocular a peçonha. É muito comum o uso do termo veneno para designar peçonha.

Vamos falar das serpentes…

Existem mais de 2300 espécies espalhadas pelo mundo e a fauna de serpentes do Brasil é considerada uma das mais ricas do Planeta com aproximadamente 386 espécies. Destas, 15% (60 espécies) pertencentes às famílias Elapidae e Viperidae são peçonhentas.

A classificação das serpentes é essencial para a identificação das espécies de importância médica, base para os estudos toxicológicos, e também para a produção de apropriado e eficiente antiveneno e no tratamento dos pacientes de acidentes ofídicos.

Infelizmente esses animais são “incompreendidos” pela maioria das pessoas, por causarem um certo medo na população, e, por isso, acabam sendo mortas quando são vistas.

Espécies peçonhentas no Brasil

1- Gênero BOTHROPS   

Imagem 1. Bothrops alternatus (urutu, urutu-cruzeira, cruzeira).

Este gênero de serpente é o mais conhecido e encontrado, se subdivide em várias espécies. Ocorre em boa parte da América do Sul. No Brasil, sua maior ocorrência vai desde o Rio Grande do Sul até o sul da Bahia, leste do Mato Grosso, e em todo o Nordeste.

Habita os campos, bosques, e, sobretudo, campos cultivados, onde existem grande número de roedores, que constituem sua alimentação. Neste gênero, encontraremos 22 espécies.

Ex: B.alternatus (urutu cruzeiro), B.cotiara (cotiara), B.insularis (jararaca ilhôa), B.jararaca (jararaca), B.jararacuçu (jararacuçu), B.caiçaca (caiçaca), B. neuwiedi (jararaca pintada), etc.

 

2- Gênero CROTALUS

Imagem 2. Cascavel

Crotalus durissus, ou cascavel, assim  é chamada na maioria das regiões onde é encontrada. Sua peçonha do tipo neurotóxico ataca o Sistema Nervoso Central e hemolítico, destruição das hemácias. A ação neurotóxica é do tipo nefrotóxica atacando diretamente os rins, causado parada renal, e por conseqüência morte.

No final da cauda, possui um guizo ou chocalho.Este dispositivo é o resquício de trocas sucessivas de pele, e, a cada troca, aumenta um elo do conjunto sonoro. A serpente faz vibrar o guizo, produzindo um som característico.

Encontrada em toda a América, procuram lugares quentes e ensolarados, e evitam florestas úmidas e quentes. No Brasil, o gênero Crotalus é dividido em 6 espécies. Seu alimento geralmente consiste de pequenos mamíferos, e, algumas vezes, inclui também pássaros.

 

3- Gênero MICRURUS

Imagem 3. Coral.

Conhecidas simplesmente como corais, ou Corais Verdadeiras, já que na natureza existem alguns outros animais que mimetizam as cores desses animais peçonhentos, para sua proteção diante de predadores, chamadas de corais falsas.

Encontra-se em todo o continente Americano, e alimenta-se de pequenas aves e mamíferos. A peçonha é do tipo neurotóxico e causa sintomas parecidos com os da peçonha da cascavel. Além disso, ataca o aparelho respiratório, causando a parada do diafragma , levando à morte por asfixia.

Possui olhos pequenos e redondos, ponta da cauda romba, animal pouco agressivo com movimentos lentos e tranquilos, pouco ou nenhum movimento do pescoço por não possuir as vértebras Atlas e Axis. No Brasil, gênero subdividido em 19 espécies.

4- Gênero LACHESIS

 

Imagem 4. Surucucu.

Conhecidas como surucucu, surucucu pico de jaca, surucucu de fogo e surucutinga. Encontradas nas florestas tropicais escuras e úmidas, e podem, ocasionalmente, ser encontradas em florestas secundárias.

É a segunda maior serpente peçonhenta do mundo (a primeira é a naja ou cobra rei), mas apesar de ser a segunda em tamanho, é a de maior peso. Alimenta-se de pequenos mamíferos e roedores, proporcionais a seu tamanho, tais como filhotes de paca,e de cotia, etc.

Sua cauda termina em uma vértebra córnea em forma de espinho, e suas escamas finais são arrepiadas, denunciando sua presença quando passa no meio dos arbustos ou quando agita a cauda, demonstrando sua agressividade para algum predador ou algum transeunte distraído. Gênero subdividido em 3 espécies, sendo só uma delas encontrada no Brasil.

Como identificar uma serpente peçonhenta?

  • Quanto às corais

Faz-se necessário o exame bucal para diferenciar a coral falsa da verdadeira, isto é, verificar se tem presas veneníferas ou não, já que, até mesmo os especialistas que trabalham com estes animais, têm dificuldade de diferenciá-los.

Este exame não deve ser feito por leigo com o manuseio do animal, nem mesmo com o animal morto. A peçonha pode estar ativa, não ter desnaturado, e causar acidente fatal. Este procedimento não deve ser utilizado em nenhuma circunstância com nenhum gênero de serpente, peçonhento ou não.

  • Quanto à cabeça

Com exceção feita às corais, cabeça de desenho triangular e desproporcional em relação ao pescoço, encontraremos entre os olhos e as fossas nasais (nariz) as fossetas loreais. Esses dois orifícios sentem a mudança de temperatura ou a aproximação de um animal de sangue quente.

Outra diferença está nos olhos, com pupilas ovais e verticais como as dos gatos. Atenção: esta característica é notada em todas as serpentes de hábitos noturnos, sem que necessariamente seja animal peçonhento.

  • Quanto ao corpo:

Ainda com exceção feita às corais, as serpentes peçonhentas têm desenhos que se mimetizam com o habitat, tornando-as camufladas ao ambiente.Estes desenhos geralmente têm forma geométrica, mas como nem tudo é regra, existem exceções.

Em linhas gerais, temos:

  • cabeça triangular (desproporcional ao corpo)
  • fosseta loreal (menos no gênero Micrurus)
  • pupila vertical (menos no gênero Micrurus)
  • corpo camuflado (com desenhos)
  • presença de guiso (somente no gênero Crotalus)
  • presença de anéis coloridos (somente no gênero Micrurus)
  • escamas arrepiadas e ponta da cauda córnea (somente no gênero Lachesis).

Como dito anteriormente, a identificação não deve ser feira por pessoas que não são reinadas e deve-se evitar a aproximção com qualquer tipo de serpente ou outro animal que possa trazer risco à vida.

Respeito às serpentes é essencial

Apesar desses animais poderem causar acidentes eles devem ser respeitados, assim como qualquer outro, e por isso se forem avistados devem ser deixados na natureza e não serem mortos, já que elas são importantes na fabricação de soro antiofídico (contra picadas).

Quando estava na graduação tive oportunidade de estagiar no serpentário da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (lugar onde é feita a retirada da peçonha para o soro) e passei a admirar as serpentes.

Passem a olhar esses animais maravilhosos de maneira diferente e visitem museus, zoológicos e outras instituições  em que eles possam ser vistos mais de perto.

Imagem 5. Cascavel tomando água, cena quase impossível de se ver na natureza. Foto: Vanessa Araujo dos Santos.

Curiosidade!

Você sabia que os filhotes de serpentes são mais “perigosos” que os adultos? Sim, devido ao fato de serem incapazes de controlar a quantidade de peçonha injetada.


Referências:

http://www.herpetofauna.com.br/serpentesvenenosasbrasil.htm

http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/serpentes.pdf

www.ebah.com.br/content/ABAAAAfj8AB/toxicologia-geral-modulo-3

http://eco.ib.usp.br/labvert/Serpentes-de-Interesse-Medico-da-Amazonia.pdf

Veja as 10 mais perigosas do mundo!-  https://hypescience.com/cobras-venenosas/

http://reptossaurus.blogspot.com.br/2012/05/cascavel.html

http://revistagloborural.globo.com/EditoraGlobo/componentes/article/edg_article_print/0,3916,1707648

http://ambientes.ambientebrasil

Sobre o Autor

Vanessa Araújo

Bacharel em Ciências Biologicas pela Pontificia Universidade Catolica do Rio Grande do Sul (PUCRS), durante a graduação atuei nas áreas de Biologia Vegetal, Biologia Celular e Tecidual,Histologia, Licenciamento ambiental e Manejo e cuidados de serpentes em cativeiros.
A paixão por biologia vem desde pequena, sempre gostei de ter contato com animais e a natureza e foi a primeira e única opção de graduação pensada. Escrever no Biologia para Biólogos vai aumentar ainda mais essa paixão pela Bio e criar novas oportunidades.

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