Saúde

Quando os Piolhos Contam a Sua Versão da História…

Os fãs de O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (trilogia 1954-1955) nem imaginam, mas devem o prazer que sentem ao lerem esses clássicos aos piolhos, humildes insetinhos cujo nome, Pediculus humanus já indica sua preferência particular pelo homem. Mas como assim?

John Ronald Reuel Tolkien, ou simplesmente J.R.R. Tolkien (1892-1973), renomado escritor autor destes e outros clássicos amados no mundo inteiro, já teve sua vida salva, pasmem, pelos piolhos. Isso se deu na Primeira Grande Guerra, mais precisamente em novembro de 1916.

Depois de cinco meses lutando nos campos franceses, Tolkien sucumbiu a uma febre abrupta e debilitante chamada de “febre das trincheiras” (causada pela bactéria Bartonella quintana), desconhecida pelos médicos da época, em um tempo anterior ao uso da penicilina. Essa doença é transmitida pelos piolhos e isso fez com que Tolkien fosse levado de volta para sua casa em Oxford.

Se não tivesse contraído a doença, talvez estivesse entre os 95 mil britânicos que morreram em combate contra as tropas alemãs na famigerada batalha de Somme, uma das mais sangrentas desta guerra. Viu? Indiretamente os piolhos lhe salvaram a vida!

Mas os piolhos da cabeça não são primazia de nosso tempo, pelo contrário, são uns dos mais antigos parasitas conhecidos pelo homem. Eles são mencionados na Bíblia como a terceira praga imposta aos egípcios, quando o faraó impediu a partida do povo Hebreu.

Piolhos adultos, assim como lêndeas foram encontrados em cabelos de múmias egípcias e de nativos pré-colombianos mumificados no Peru. Lêndeas também foram recentemente encontrados no cabelo de um indivíduo que viveu há 9.000 anos, na caverna Nahal Hemar, próxima ao Mar Morto, sendo esses os mais antigos registros conhecidos.

Pentes finos, semelhantes aos ainda usados hoje, são conhecidos há pelo menos 3.500 anos como instrumentos para o controle de piolhos, tendo sido encontrados em escavações arqueológicas no Deserto Negev de Israel.

Os piolhos já modificaram o curso da História diversas vezes. Em 1571, o Imperador Maximiliano II, da Alemanha, em guerra contra os turcos, teve o seu exército dizimado pela Tifo epidêmico (tifo exantemático, doença bacteriana causada pela Rickettsia prowazekii também disseminada por piolhos), que o obrigou a assinar uma trégua com pesada indenização.

 

 

Na Guerra dos 30 Anos, que eclodiu na Europa do início do período setecentista, os exércitos de Gustavo Adolfo e de Wellestein foram atacados pelo piolho que disseminou a doença em ambas as tropas, obrigando-as a renunciar à batalha pela posse da Cidade de Nuremberg.

Se a corte francesa também sofreu com os piolhos (tendo em vista que aquelas famosas perucas brancas, tão observadas em filmes que tentam retratar a época, eram verdadeiros ninhos para esses incômodos insetos), as tropas francesas do afamado Império Napoleônico sofreram ainda mais.

Lembra da famosa retirada de Moscou em 1812? Pois é, lá estavam os piolhos transmitindo a Febre Tifóide, e com isso, contribuindo para o êxito da hábil estratégia da “terra arrasada” adotada pelo exército russo. Ocorre que em meio aquela destruição, alem da fome e do frio, os comandados de Napoleão Bonaparte sofreram com essa febre, gerando baixa de 500 mil para apenas três mil homens.

Voltando a falar da Primeira Grande Guerra (1914-1918), em seus primeiros anos, os soldados baixavam ao hospital vítimas da febre das trincheiras, como vimos, doença veiculada pelo piolho. Estima-se que, só de soldados russos, dois milhões tenham morrido devido a esta epidemia; desconhecendo sua etiologia, os médicos a indicavam, em seus relatórios, simplesmente com as iniciais P.U.O. (febre de causa desconhecida – Pyrexia of Unknown Origin). Na Sérvia, no auge da epidemia, morriam em média nove mil pessoas por dia.

Durante as duas grandes guerras, ocorreram surtos epidêmicos da febre recorrente na Europa, mas na ultima grande guerra teve a intervenção de entomologistas, sanitaristas e químicos, não havendo graves problemas nesse sentido.

Na Segunda Guerra, o biólogo polonês Rudolf Weigl criou a primeira vacina efetiva contra o tifo. Entretanto, após a guerra, a comunidade judaica reconheceu que ele teria salvado a vida de diversos judeus. Como?

Simples: ele dizia aos nazistas que necessitava de diversos judeus para que fossem usados como cobaias e para que fornecessem o sangue que manteriam vivos os piolhos que eram utilizados em seus experimentos. Como os nazistas não se preocupavam com a vida dos judeus e tinham horror ao tifo, não se negaram.

Assim, diversos judeus foram poupados por estarem “colaborando” com os experimentos de Rudolf Weigl (que desenvolveu uma técnica que não os contaminaria), mas muitos outros que estavam em guetos também foram salvos com a quantidade de vacina produzida. Israel lhe concedeu o título póstumo de “Justo entre as Nações”, em 2003.

E na História do Brasil? Entre as estratégias adotadas por Napoleão Bonaparte, o Bloqueio Continental é certamente uma das mais famosas, visto sua importância para a História de nosso país, pois proporcionou a fuga da família real para o Brasil. A família real então, quando chega ao Brasil, tem a cabeça envolta em panos. Os locais acreditaram que era uma moda de turbantes na Europa, mas o fato, é que se tratava de uma grande infestação de piolhos que havia acontecido na viagem.

Embora sejam considerados uma praga, os piolhos serviam de alimento para os nativos do Novo Mundo. Os índios Macuxis da região do Rio Branco e Rio Rupununi, compreendendo Brasil e Guiana,  os Crixanás de Roraima eram grandes apreciadores de piolhos.

E segundo as narrativas realizadas no século XVI pelo padre franciscano, cosmógrafo, explorador e escritor francês André Thevet, essa prática também era comum entre as nativas do Rio de Janeiro que comiam os piolhos à medida que eram tirados das cabeças dos seus filhos.

Pode até parecer mentira, mas não é. Já se constatou mais de 15 mil piolhos em uma camisa e mais de 3.500 na cabeça de um único homem. Nas escolas, e em particular nos primeiros seguimentos, o piolho da cabeça configura-se como objeto de atenção dos educadores, que por vezes necessitam apoiar as famílias nas práticas de higiene pessoal de seus alunos, dada a freqüência de sua ocorrência.

Imagino que muitos que lerão esse texto, em algum momento, coçarão suas cabeças, pois certamente já tiveram esses humildes insetinhos freqüentando seus couros cabeludos.


Referências:

Barenys, C.A. Piojos contra nazis, la historia de Rudolf Weigl. <https://supercurioso.com/piojos-contra- nazis/>, acessado em 02/10/2017.

Bastos, A. A pantofagia ou as estranhas práticas alimentares da selva: Estudo na região amazônica. São Paulo, Editora Nacional; Brasília DF, 1987.

Carrera, M. Insetos de Interesse Médico e Veterinário. Ed. UFPR, 1991.

Cavalcante, M. S. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora, 2014.

Thevet, A. (1502-1590). A cosmografia universal de André Thevet, cosmógrafo do Rei. Coleção Franceses no Brasil – Séculos XVI e XVII, vol. II. Rio de Janeiro: Batel, Fundação Darci Ribeiro. 2009.

White, M. J.R.R. Tolkien, o senhor da fantasia. Rio de Janeiro:Dark Side, 2013.

Sobre o Autor

Guilherme Furusawa

Sou biólogo, licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Severino Sombra. Moro em Vassouras, interior do Rio. Curto muito a Entomologia mas nesse momento estou me aventurando na Acarologia. Sempre quis um espaço para escrever sobre esses temas de forma popular e acredito que o Biologia para Biólogos seja a canal que eu sempre busquei. Espero que meus textos agradem.

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