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Quem são as pragas?

Consultando os sites oficiais acerca dos principais problemas encontrados na produção de alimentos no campo, é consenso que se tratam da escassez de recursos técnicos e tecnológicos oferecidos aos nossos produtores.

E em se tratando dos recursos técnicos, os recursos e as informações acerca do combate às pragas se destacam. Mas, quem são essas pragas? Entendem praga como o surto de determinadas espécies nocivas à produção agrícola, que podem ser desde ratos, vermes, insetos, ácaros, microorganismos e até outras plantas, as ditas ervas daninhas. Entretanto, a palavra praga cujo sentido é sempre negativo, pode estar sendo equivocadamente utilizada.

Vejamos o caso dos insetos:
Nos ambientes agrícolas, a ação dos insetos pragas pode reduzir consideravelmente a produção de alimentos no mundo, seja no campo ou nos armazéns. Esse destaque talvez se dê pelo fato de serem estes os animais mais numerosos do planeta e por pertencerem a esse grupo, os seres mais bem adaptados às condições impostas por essa grande variedade de ambientes na Terra.

Além disso, estes organismos co-evoluíram ao longo de milhares de anos associando-se intimamente à praticamente todas as espécies de plantas distribuídas na biosfera. Então temos que perguntar: por que esses insetos são pragas? Por “roubarem” parte dos nossos produtos agrícolas? Como podemos chamar de praga indivíduos que há cerca de 390 milhões de anos, quando não existia a maioria dos animais que hoje conhecemos, e muito menos qualquer convencido vertebrado, já conviviam em harmonia com todas as espécies vegetais, animais e até microscópicas de sua época?

Aliás, muito diferente do homem, que representa uma página muito recente no livro da história natural e ainda está distante de lograr qualquer convivência harmônica com os outros seres viventes nesse imenso balaio biológico que constitui a vida.

Mas será que há 390 milhões de anos já eram pragas? Em sua rotina diária, os insetos contribuíam ao equilíbrio do ambiente, lutando, consumindo, sendo consumidos, polinizando, decompondo… Eis que um belo dia, depois de muito, muito tempo, surge o homem.

Em seu princípio talvez fosse apenas um comensal dos grandes predadores, porém, mais tarde, logrou-se um carniceiro hábil e um coletor talentoso. E bem mais recentemente cedeu ao sedentarismo, descobrindo as práticas agrícolas e, logo em seguida, a domesticação de alguns animais, desbravando a pecuária. Descobre que pode não apenas extrair da natureza seu sustento alimentar, como também manipulá-lo, deixando de ser apenas um coletor, passa a fixar moradia e programa transformações no espaço. Retira as espécies de plantas que consumia na natureza e as traz para junto de si, as cultiva, modifica o ambiente criando então a agricultura.

Com sua voracidade, ousando querer mais do espaço natural, organiza-a em monoculturas de forma a facilitar sua manipulação. Descobre ainda que é capaz de transformar as espécies vegetais através da seleção das melhores sementes e de cruzamentos, transformando-as como fez, por exemplo, com a humilde grama nativa hoje transformada em milho e trigo generosos.

Assim surgem inúmeras novas espécies mais vistosas e saborosas, além da manipulação do solo, tornando-os mais férteis e dadivosos. Nada obstante, enquanto desbravava ele estas descobertas, notadamente não só ele apreciava estas novidades. Os insetos também gostaram, pois, além de terem agora a oferta de alimento em abundância, encontraram também um ambiente modificado que lhes proporcionou menor risco de serem consumidos, caçados, como acontecia em seu ambiente natural, pois este novo ambiente era hostil a maioria das aves, anfíbios e repteis, dentre outros ditos inimigos naturais da maioria dos insetos.

Ou seja, esse novo ambiente criado pelo homem proporcionava aos insetos mais alimento, confinado, melhorado e ainda com a diminuição no número de seus predadores, que não apresentavam o mesmo sucesso nestes novos habitats.

O homem ao perceber que estava tendo que dividir seu alimento com os insetos, tratou de desmanchar essa sociedade que julgou injusta. Com o passar de muito tempo de lutas, foi somente após a chamada Revolução Verde (que de verde não tinha nada) na década de 50, que criou então os inseticidas, defensivos agrícolas, agrotóxicos, praguicidas e tantas outras drogas, extremamente lucrativas, e com a mesma finalidade (sem contar os modernos, possivelmente nocivos e ineficientes transgênicos no combate a estas pragas, mas aí já é outra história). Cria ter solucionado o problema das ditas pragas agrícolas e outras, como os insetos pragas, vetores de diversas doenças no mundo.

Mas, com o uso destas substâncias revolucionárias, ele não combatia apenas a praga indesejada, mas também uma série de organismos necessários e benéficos ao equilíbrio daquele ecossistema, enfraquecendo-o no seu todo. As pragas que ele atacava, através de um processo não intencional de Seleção Artificial, acabavam voltando mais resistentes e com um ambiente mais favorável, pois agora esse ambiente está cada vez mais isento de seus predadores naturais, que normalmente não resistiam da mesma forma à ofensiva humana, e encontrando também plantas enfraquecidas, que ofereciam menos oposição à sua atuação daninha.

Além disso, acabou adotando um método basicamente dispendioso, pois exige a compra rotineira de produtos químicos fabricados por um complexo processo industrial. E por fim, ele, o homem, utilizou e vem utilizando um produto altamente tóxico, cujos resíduos persistentes deverão prejudicar de diversas maneiras a saúde dos futuros consumidores daquele alimento e o ambiente como um todo, em seu contexto mais amplo.

Ocorre, porém, que a decisão de continuar a utilizar essa técnica frustrada de controlar as pragas não surge na mente do lavrador. A propaganda das grandes indústrias químicas e as informações dominantes em muitos meios acadêmicos e nas agencias oficiais sempre lhe fizeram crer que esse método é o mais lógico, mais moderno e mais eficiente.

Será mesmo?

A eficiência desses agrotóxicos tem sido cada vez mais contestada. As ditas pragas se tornam cada vez mais resistentes, resultando em um aumento na quantidade e na toxicidade desses produtos e, o que é pior, muitas espécies de organismos que antes eram inócuas se tornaram nocivas pelo desaparecimento de seus predadores, além de inúmeros outros problemas ecológicos, causados pelo uso dos próprios praguicidas, como a contaminação dos rios, dos aqüíferos subterrâneos e até mesmo oceanos.

Assim, o número de espécies de pragas apenas cresce. Da mesma forma, cresce também o aumento na sua resistência à ação destes químicos. Vale ressaltar que o Brasil gastou, só em 2011, cerca de R$14 bilhões na compra destes produtos, sem contar os que são comprados de forma ilegal de países vizinhos. Em 2015 estimaram que o brasileiro consome em média 7,5 Litros de agrotóxicos por ano. Reações variadas, intoxicações de toda ordem, cânceres, etc.

Usando ainda como exemplo o Brasil, país que mais utiliza defensivos agrícolas no mundo, e por isso mesmo, em tese, deveria ser o país com menor número destes organismos indesejados, registrou-se que, de 193 pragas descritas em 1958, esse número passou para 593 em 1976, menos de 20 anos, com natural destaque aos insetos, sendo esses números impressionantemente maiores nos dias de hoje. Naturalmente que isso se deve também ao aumento e à diversidade na produção, ao impacto nos ambientes que cedem espaço a estes sistemas, como principalmente ao transito do homem no mundo, sempre de alguma forma acompanhado.

O ser humano, ao desagregar esses fatores naturais, ou ainda, ao lutar contra a dinâmica da natureza onde estão inseridos os insetos e outros organismos, acaba por criar as pragas, organismos modificados e adaptados a conviver com o homem, pelo próprio homem. Contudo, se mantivermos esse conceito de que pragas são indivíduos maléficos e que devem ser combatidos a qualquer custo, inimigos do homem, fica a pergunta no ar: quem são as verdadeiras pragas? O homem, constituído do mesmo átomo de Carbono que compõe tudo o que é vivo na natureza, e que ao se desviar da harmonia que regia sua origem, acabou por criar desequilíbrios, rompendo a sustentabilidade desses ecossistemas, pondo em risco diversos aspectos da vida na Biosfera? Ou os insetos?

Deixamos claro que o homem, longe de ser um elemento anatural, é um ser que tem a responsabilidade de atuar na gestão do espaço em que vive, cumprindo assim o seu papel na grandiosa atividade da natureza; e que o agricultor é a importante ferramenta social que tem a função de produzir os alimentos vitais à
manutenção da espécie humana em sociedade.

A crítica apresentada vai direcionada apenas àqueles que desvirtuaram o real papel do homem na natureza, modificando a sua ação de zelo e respeito pelo ambiente, para justificar o consumismo e o acumulo de bens, como a premissa de sua vida sobre a Terra. Esse é o equívoco que buscamos combater, ao menos quando se trata de produzir alimento.

Concluímos que, quando não é mais a sobrevivência da coletividade que está em jogo, havendo inclusive a despreocupação com a vida, nesse momento o ser humano aproxima-se do anatural.

E qual seria a solução? A solução está em recomeçarmos tudo. Voltarmos à origem. Revermos nossos
conceitos acerca do nosso papel sobre a Terra. Essa reflexão invariavelmente vai nos levar onde já estivemos, há muito tempo. Vai nos fazer trilhar os caminhos do manejo agro-ecológico, do uso de defensivos biológicos, de se desenvolver novas técnicas e baratear as técnicas conhecidas. Mas isso também significa lutar contra gigantes, empresas multinacionais, políticos e diversos interesses.

“O Homem é a única criatura que se recusa a ser o que é.”

Albert Camus.

Fonte: acervo pessoal (Coleoptera, Cassidinae)

Referências:

Gallo, D. Entomologia Agrícola. Ed. FEALQ. Piracicaba, SP, 2002.

Boff, L. Saber Cuidar, a Ética Humana e Compaixão Pela Terra. Ed. Vozes. Petrópolis, Rio de Janeiro, 20
ed.,1999.

Sobre o Autor

Guilherme Furusawa

Sou biólogo, licenciado em Ciências Biológicas pela Universidade Severino Sombra. Moro em Vassouras, interior do Rio. Curto muito a Entomologia mas nesse momento estou me aventurando na Acarologia. Sempre quis um espaço para escrever sobre esses temas de forma popular e acredito que o Biologia para Biólogos seja a canal que eu sempre busquei. Espero que meus textos agradem.

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